Julho 7, 2009

Win Wenders, cineasta alemão: “Que logo nas escolas se ensine as crianças a ver cinema”

Em entrevista a um jornal português, em virtude do lançamento de seu filme “Palermo Shooting”, o premiado e celebrado cineasta alemão Wim Wenders destacou que, para ampliar a visão dos alunos e sua capacidade de apreensão e entendimento das diferentes escolas cinematográficas, em especial a européia, é preciso “que logo nas escolas, se ensine as crianças a ver cinema e a saber como se fazem filmes”. Penso que este trabalho deve ser feito desde a infãncia, certamente, mas que é igualmente imperativo que tal ação prossiga em etapas posteriores da vida, como a adolescência e a juventude, por exemplo, para fixar conceitos, dar mais clareza e compreensão, aumentar a dimensão estética percebida nos filmes e, é claro, permitir que as pessoas aprendam ao mesmo tempo em que se divertem com a Sétima Arte. O diretor foi além e complementou seu pensamento acerca da importância do Cinema na Escola dizendo que “vivemos num mundo regido por imagens, há que ensinar as pessoas a distinguir o trigo do joio”. Tais afirmações são procedentes, em especial para que a diversidade cultural propagada pelas diferentes escolas cinematográficas existentes no mundo encontrem penetração e possibilidade de se tornarem recursos culturais acessíveis a todos, evitando o monopólio norte-americano. Além disso, ao afirmar que o mundo de hoje é regido por imagens, Wenders atesta a importância de aprendermos a “ler” tais recursos e, ao mesmo tempo, nos alerta quanto a necessidade de trabalharmos mais arduamente também a produção escrita e a leitura de textos, ainda que emparceirada com recursos visuais, como os filmes.

Por João Luís de Almeida Machado

Julho 6, 2009

Maria Antonieta [Marie Antoinette - EUA/Japão/França, 2006]

Figura história controvertida, polêmica, Maria Antonieta ficou conhecida mundo afora por comentário que teria dito pouco antes da explosão revolucionária francesa em 1789, iniciada com a Queda da Bastilha. A “austríaca” que se tornou rainha da França, caiu na boca do povo faminto ao dizer que “se ao povo faltam pães, que comam brioches”, numa cabal prova do desconhecimento e total alienação dos nobres franceses em relação a plebe.

Se a frase é verdadeira ou não ainda é um mistério. Há historiadores que afirmam ser tal comentário uma fraude. Outros, no entanto, devido ao rancor da população em relação a rainha, pensam que tal pronunciamento, mesmo que não totalmente semelhante ao que caiu na boca do povo, pode ser verdadeiro.

De qualquer forma, o filme esplendoroso de Sofia Coppola (diretora de Encontros e Desencontros, e filha do mestre Francis Ford Coppola) que resgata a existência desta polêmica rainha, casada com Luís XVI, é um valioso exemplar de filme épico que tenta nos colocar em contato com a figura humana por trás da celebridade, da autoridade, do mito e de todos os mexericos criados quanto aos poderosos.

Numa época como a atual, em que não há mais limites a separar aquilo que é público do que é privado quanto a vida dos famosos, falar sobre as intimidades de Maria Antonieta não parece tão importante. Mas humanizar aquilo que aos olhos de todos é apenas vaidade, egocentrismo, riqueza, luxo e pouco caso nos permite perceber que a personagem vivida nas telas com maestria por Kirsten Dunst era vítima das circunstâncias e do contexto em que vivia.

Casada por conveniência, para selar a paz e acordos de cooperação entre seu país de origem (a Áustria) e a França, vivendo ao lado de um marido que pouco parecia se interessar por ela (mesmo sexualmente, numa época de extrema libertinagem), sofrendo com a xenofobia dentro dos castelos em que vivia, distanciada do povo por opção da nobreza como um todo, que não se permitia qualquer contato com a “ralé” e pressionada socialmente para se tornar mãe do herdeiro do trono da França, Maria Antonieta era uma mulher sofrida que diante de seus amargores, se refugia no luxo, na riqueza, na posição que a vida lhe ofereceu…

Se não bastasse toda a bela composição de época quanto a locações, figurinos, cenografia, fotografia e demais quesitos técnicos ímpares destacados nesta produção de Sofia Coppola, a música incidental inovou os rumos das obras épicas ao misturar o clássico com o contemporâneo, de acordo com o momento e a necessidade do filme e da história que estava sendo contada. Um belíssimo filme. Indispensável para quem admira a Sétima Arte.

Maria Antonieta também é valioso por nos permitir paralelos com o mundo de hoje… Por exemplo, o distanciamento dos poderosos em relação a plebe pode servir muito bem para entender o que ocorre entre o Congresso Nacional do Brasil e seus eleitores… Outra boa comparação relaciona-se a forma como as pessoas se relacionam com seus ídolos, alimentando sentimentos de amor e ódio de acordo com o que é trazido a público pela grande mídia, sejam informações verdadeiras ou apenas boatos (o recente falecimento de Michael Jackson, o rei do pop, demonstra claramente isto)…

Por João Luís de Almeida Machado

Julho 1, 2009

As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County, EUA/1995)

Muitas pessoas pensam que um belo romance nas telas deve necessariamente ser protagonizado por casais jovens, compostos por belos artistas, que consigam demonstrar num filme a necessária química… É certo que a química é muito necessária, nisto Linus Pauling há de concordar, mas o cinema não se atém (felizmente) a certos padrões e fórmulas, estereótipos ou imposições e, por conta disto, não apenas os jovens podem (e devem) estar a frente de uma produção romântica nos papéis principais…

“As Pontes de Madison”, dirigido e protagonizado pelo astro Clint Eastwood no ano de 1995, co-estrelado pela sempre fulgurante e talentosa Meryl Streep, é um dos filmes que certamente contraria esta visão que predomina entre grande parte do público. E mais do que simplesmente contrariar, emociona, encanta…

Meryl é uma mulher de ascendência italiana que casou-se na época da guerra com um jovem soldado americano e migrou para os Estados Unidos. Estabeleceu-se a partir de então no estado de Iowa, numa propriedade rural da família de seu esposo, onde viu nascerem seus dois filhos e levava uma vida pacata, típica de cidade pequena do interior dos EUA, sem grandes atribulações e, também, sem sonhos…

Clint é um fotógrafo da National Geographic contratado para tirar fotos das pontes do condato de Madison, local onde vive Francesca (Meryl). Por acaso este trabalho coincide com uma feira rural que ocorre em cidade afastada e que leva para lá o marido e o casal de filhos de Francesca, ficando o grupo ausente de casa por quatro dias.

Perdido nas estradas de terra da região, Robert (Clint) para e pede informações na fazenda de Francesca que, confusa, não consegue explicar com exatidão o local da ponte procurada pelo fotógrafo. Para não deixá-lo vagando perdido pela região, se oferece para guiá-lo até o local procurado. Desta gentileza surge o encontro, do contato que se estabelece brota a curiosidade, a química dos elementos começa a funcionar e entre eles desperta um dos mais belos e tórridos romances do cinema americano.

Belíssimo na proposta, com roteiro inteligente, cenas suaves que criam uma leve e agradável sensualidade, contando com o carisma e o talento dos dois astros e ainda, como pano de fundo, ajudando a quebrar resistências sociais ao enlace de curto período que os torna eternos em seu amor, “As Pontes de Madison” é uma pérola a mais no tesouro cinematográfico americano que está sendo construído por Eastwood. Apaixonante! Cinema de Primeira!

Por João Luís de Almeida Machado

Junho 26, 2009

Cenografia, a arte de falar pelos objetos

Cenografia é a arte, técnica e ciência através da qual são criados, projetados e concebidos cenários que irão compor o pano de fundo de produções teatrais, televisivas e cinematográficas. Através da Cenografia comunicam-se idéias importantes para quem assiste essas produções, pois os elementos de cena ajudam a definir e detalhar aspectos marcantes como a época e o espaço onde acontecem as tramas. Além disso, os objetos e acessórios utilizados para ornar os ambientes onde ocorrem a dramatização auxiliam o ator a compor seu personagem e os espectadores a entender melhor as ações dos protagonistas da história. Os cenários são compostos por elementos que vão desde cortinas, tapetes, móveis, eletrodomésticos, janelas ou portas até acessórios de pequeno porte como relógios de parede, cinzeiros, porta-retratos, livros, cds…

Por João Luís de Almeida Machado

Junho 23, 2009

A Conquista da Honra (Flags of our fathers, EUA/2006)

Heróis, celebrados publicamente, com direito a vários momentos de comemoração em diferentes partes do país. Homens que lutaram por sua bandeira, pelos princípios contidos em sua carta constitucional, por valores como a liberdade e a democracia. Jovens que se sacrificaram nas frentes de batalha do Pacífico, na guerra cruenta contra o Japão, vendo sucumbirem vários companheiros de farda e que, ainda assim, subiram ao topo da montanha e fincaram o símbolo máximo daquilo tudo que defendiam, a bandeira dos Estados Unidos.

“A Conquista da Honra”, mais um excelente filme do diretor Clint Eastwood, podia muito bem seguir a trilha do patriotismo que exalta os valores nacionais e coloca os norte-americanos no topo do mundo. Sensível ao que tem visto e vivido, o ex-prefeito de Carmel e astro de filmes de faroeste, dados bastante representativos para demonstrar o quão americano (até o último fio de cabelo) é Eastwood, resolveu fazer um filme diferente…

Trouxe com isto a história dos soldados que teriam fincado a bandeira norte-americana no topo de uma elevação em Iwo Jima, ilha dominada pelos japoneses na Segunda Guerra Mundial e por eles considerada terra sagrada, por isto mesmo, uma das mais duras e sangrentas batalhas travadas entre 1939 e 1945.

E, ao invés de mostrar o júbilo, a exaltação, nos colocou nos bastidores, atrás das cortinas… Por isso mesmo, não teve receio em demonstrar o quanto há de política na exploração do heroísmo nacional, mesmo que forjado, para conseguir aumentar a arrecadação com a venda de bônus de guerra para pagar os altos custos de manutenção do esforço de batalhas caríssimas em diferentes fronts…

Fez paralelos entre a chegada e o desenrolar das ações bélicas das forças americanas em Iwo Jima, apresentando sem máscaras a tragédia da guerra, durante a qual tantas vidas jovens foram ceifadas de forma brutal e assustadora e todo o estardalhaço e festa promovidos pelo governo, por empresários espertalhões e pela imprensa sensacionalista em função de uma foto proveniente da frente de batalha.

Foto clássica que traz os soldados norte-americanos, em grupo, fincando a bandeira de seu país no topo de uma colina em Iwo Jima e que celebrizou-se mundo afora, constando hoje em muitos livros de história. Este registro em celulóide teria representado a virada, a reconquista do espírito vitorioso que guiara os Estados Unidos durante toda a sua existência independente.

Da foto foram resgatados três soldados, consagrados como heróis e trazidos de volta a América, para destacar a valentia e bravura dos jovens combatentes no Pacífico e, principalmente, arrecadar fundos. Mas o que sentiam estes homens, de súbito tirados da companhia de seus batalhões, do cheiro forte de enxofre tão característico de Iwo Jima, da morte que os rondava e ameaçava ao mesmo tempo em que carregava alguns de seus companheiros?

Sentiam-se heróis? Sabiam-se dignos de todas as honrarias a eles concedidas? Concordavam com tudo o que estava sendo feito? Ou eram apenas sobreviventes de uma guerra insana? E depois de tudo isto, o que viria? Como seriam suas vidas? Existem realmente heróis ou somos mesmo de carne e osso, lutando para que as luzes não se apaguem mais cedo?

“A Conquista da Honra” é um filme grandioso enquanto espetáculo cinematográfico, nos propõe repensar a guerra, nos coloca em xeque quanto a valores ou idéias que temos, tem um elenco não muito conhecido, mas bastante convincente e competente e, principalmente, conta com a experiência, maturidade e sensibilidade de um velho caubói detrás das telas… Um craque da Sétima Arte… Imperdível.

Obs. Ao mesmo tempo em que produziu e dirigiu  ”A Conquista da Honra”, Clint Eastwood realizou “Cartas de Iwo Jima”, mostrando o lado japonês daquela batalha… Mais uma demonstração de caráter e brio deste caubói, não acham? Estarei em breve produzindo um texto sobre esta outra produção de Clint, aguardem!

Por João Luís de Almeida Machado

Junho 15, 2009

Syriana (EUA, 2005)

“Há algo de podre no reino da Dinamarca”, já preconizava Shakespeare em plena Idade Moderna em uma de suas mais conhecidas obras, Hamlet. Antecipava no tempo o que parece ser tão corriqueiro nos dias de hoje e apenas constatava a existência daquilo que o pensador realista italiano, Nicolau Maquiavel escancarava aos ventos em suas obras, como “O Príncipe”. A maldade e a corrupção parecem inerentes aos seres humanos – ainda que a dissimulação e o teatro criado por homens e mulheres seja, muitas vezes, tão convincente – tanto o bardo inglês quanto o filósofo político italiano falam através de suas obras daquilo que não gostamos de inferir, crer, visualizar, verbalizar quanto aos seres humanos…

Somos lobos dos homens, conforme pensava Hobbes, conterrâneo de Shakespeare e filósofo como Maquiavel. Será, porém, que este destino é irrevogável? Estamos realmente fadados a esta sina? Pelos escândalos políticos que vemos mundo afora, parece que sim… Pessoalmente procuro acreditar que esta não é a trajetória real da humanidade e que, há homens e mulheres que buscam o caminho da dignidade, da transparência, do diálogo, do entendimento, da justiça social, da ética…

O cinema nos traz, felizmente, tanto histórias que despertam nosso olhar para a cobiça, a ambição desenfreada, a sociedade corrompida e a corrupção reinante quanto para a desmedida bondade, honestidade de princípios, ética pessoal e profissional…

Syriana, filme do diretor Stephen Gaghan, no mínimo nos dá o direito a dupla interpretação, ao nos colocar no olho do furação contemporâneo, a luta pela posse, direitos de exploração e toda a lucratividade existente no ouro negro, o petróleo.

Primeiramente por nos fazer entender como a roda da fortuna é acionada… Quem são os principais participantes, como o sórdido esquema de negociações é encaminhado, o custo irrisório da vida humana, o trabalho em condições pouco apropriadas e hostis, a fortuna que alimenta faustosos banquetes e festas, os bastidores políticos…

Ou seja, por este viés, entramos na toca dos lobos (conforme Hobbes), percebemos o lado podre dos reinos em questão (para lembrar Shakespeare) e entendemos porque e como “O Príncipe” (do italiano Nicolau Maquiavel)  é ainda livro de cabeceira de tantos ilustres poderosos…

Num segundo momento, podemos interpretar que a obra em questão, o filme “Syriana”, é importante libelo a nos abrir os olhos e permitir perceber e agir quanto a forma como o mundo e os negócios são geridos. Neste caso abrindo nossos olhos ao modo corrupto e sem qualquer consideração quanto a questões que dizem respeito a todos.

Permitindo-nos ver como a população dos países onde estes combustíveis fósseis é explorada, sem levar em conta questões ambientais importantíssimas, desprezando a legalidade estabelecida para gerir as relações entre os homens, considerando a vida humana sem valor e, por isso mesma, desperdiçando-a ou ceifando-a de acordo com os interesses e valores (monetários) em questão…

Só por estes dois ângulos (e há vários outros que poderiam certamente ser explorados ou percebidos) já seria valioso assistir “Syriana”. Pode-se ainda destacar sua originalidade, recorte e andamento cinematográfico, a presença e atuação destacada dos astros George Clooney (desglamourizado, vários quilos acima do normal, abatido… em interpretação memorável) e Matt Damon…

Preciso dizer mais? Não, é claro. É um thriller político de alto teor explosivo que, certamente, é Cinema de Primeira. Não percam!

Por João Luís de Almeida Machado

Junho 8, 2009

A Loja Mágica de Brinquedos (Mr. Magorium’s Wonder Emporium, EUA/2007)

Brincar de faz de conta. Inventar brinquedos a partir de latas, caixas de papelão, carretéis de linha, barbantes, batatas… Andar de bicicleta, divertir-se com jogos de tabuleiro (clássicos universais como xadrez, damas, ludo ou ainda contemporâneos como War, Banco Imobiliário, Detetive…), criar universos com bonecas ou personagens articulados, reinventar as pistas de corridas com carrinhos de ferro, jogar bola…

Ser criança é uma dádiva. Este presente, no entanto, tem sido abreviado com o passar dos anos. O impacto do mundo adulto sobre as crianças tem sido devastador e mereceria estudos sérios. Hoje, com 8 ou 9 anos já se cobra dos infantes que tenham, no mínimo, uma paquera na escola ou no bairro. As meninas, por sua vez, são estimuladas a usar maquiagem, perfume e a se mostrarem femininas e sedutoras… Isso na faixa dos 10 a 12 anos… Creiam-me, é o fim do mundo ou, ao menos, da infância como deveria ser vivida…

Filmes como “A Loja Mágica de Brinquedos”, do diretor Zack Helm, tem o claro intuito de trazer de volta a magia, a imaginação, a criatividade e toda a alegria que existe em ser criança. Com isto, espero, ajude a iluminar pais e filhos e lhes devolva o direito da infância, prorrogando-a por mais algum tempo além daquele que a sociedade voraz e perniciosa, rápida e precoce, tem oferecido.

Nesta produção, entramos num Empório (como no título) que pertence há alguns séculos ao caricato e mágico senhor Magorium (Dustin Hoffman, uma das lendas do cinema americano que ainda continua ativo). Ele está com seus dias contados, mas diferentemente de qualquer outra pessoa, ao invés de se mostrar recluso, doente, acamado, prefere manter o alto astral e se incumbir de uma missão final em sua longa trajetória, passar sua loja para a única pessoa que acredita capaz de manter a magia ali residente, sua assistente, Molly Mahoney (Natalie Portman, jovem e talentosa atriz da nova geração do cinema yankee).

Molly, no entanto, apesar de honrada com a possibilidade, não consegue imaginar-se dona da loja e, principalmente, capaz de dar ao estabelecimento toda a beleza, vibração e magia ali residentes em virtude de seu proprietário original, o Sr. Magorium.

A loja tem brinquedos maravilhosos, que a partir do momento em que são acionados, tocados ou manipulados por qualquer criança, tornam-se dínamos de criatividade e encantamento para todas as pessoas. Aos olhos de Molly Mahoney, o fascínio existente na loja é decorrente do proprietário, o Sr. Magorium, e ela não teria tal habilidade e encantamento para manter toda a magia…

“A Loja Mágica de Brinquedos” é uma grande fantasia alegórica que quer ir além da diversão (garantida pelo espetáculo visual, pelos atores em atuações destacadas, pelo roteiro de qualidade…) já que, além disso, se propõe a tentar resgatar o que ainda existe de infância em muitos adultos e, se possível, preservar e prolongar o sonho de criança que muitos infantes estão perdendo…

Uma bela fábula atemporal mais que necessária para os dias de hoje – tão cinzentos e amargos… A proposta da produção é vida e cor, diversão e felicidade… A magia, afinal de contas, está dentro de cada um de nós…

Por João Luís de Almeida Machado

Junho 1, 2009

Enterrem meu coração na curva do rio (Bury my heart at Wounded Knee – EUA, 2007)

Civilizar, tornar civilizado ou capacitado para o exercício da civilidade. Quando compreendemos que na definição do termo civilizar não se estipulam parâmetros ou padrões que possam nortear exatamente que tipo de comportamente deve ser esperado das pessoas, ficam mais claros aos olhos de todos as atrocidades cometidas contra diversos povos e culturas ao longo da história.

Até mesmo porque há diferenças contextuais e culturais marcantes entre os diversos grupos humanos, claramente visualizáveis aos olhos de todos, que se em algum momento da trajetória humana na Terra fossem realmente levados em conta, jamais permitiriam ou legariam a alguma cultura tentar sobrepor-se a outras. A diversidade é a maior riqueza dos seres humanos…

Não há, entre nós humanos, melhores ou piores, apenas somos diferentes… Podemos, no entanto, nas adversidades e ameaças, abandonar e esquecer qualquer resquício de civilidade… Por isso mesmo, o melhor, sempre, é tentar encontrar o caminho do diálogo, da compreensão, do entendimento, da paz…

Mas ao invés disto, lutamos por ouro, terras, petróleo, mão de obra, diamantes…

“Enterrem meu coração na curva do rio” é a refilmagem do clássico livro de Dee Brown sobre o progressivo genocídio das culturas indígenas da América do Norte pelos colonos que ocuparam o oeste dos Estados Unidos.

Acuados pelo avanço dos colonizadores, os índios reagiram e sempre procuraram defender suas terras dos invasores. Por isso, ao longo da história do cinema norte-americano, quase sempre foram retratados como selvagens. Civilizar os nativos tornou-se “bandeira” de todos aqueles que, na realidade, queriam se apossar de terras ricas em minérios ou bastante férteis para o exercício da agricultura.

A mais recente produção baseada no livro clássico de Dee Brown nos coloca em contato com a história a partir tanto do viés político quanto do confronto que ocasionou a morte de milhares de indígenas e soldados. Ficam claros os interesses que motivaram as ações do governo americano em prol dos colonizadores, em especial a partir da confirmação da existência de jazidas minerais ricas em terras onde viviam os nativos.

Também se evidenciam os traços da cultura indígena tanto para o bem quanto para o mal. Não há somente santos e nem tampouco apenas pecadores. Os índios também são humanos e, nesse sentido, são igualmente retratados a partir tanto de seus atos mais nobres e heróicos quanto daqueles que demonstram suas fraquezas e vilezas.

Filme produzido pela HBO para a televisão, esta versão de 2007 de “Enterrem meu coração na curva do rio” tem produção esmerada, locações belíssimas, bons atores (inclusive Anna Paquin, que ainda menina concorreu ao Oscar por “O Piano”, de Jane Campion), roteiro bem amarrado e, principalmente, nos permite entrar em contato com a nossa consciência, em busca de respostas que permitam a humanidade evitar hoje e no futuro, novos massacres, genocídios e destruições em função da luta por riquezas…

Por João Luís de Almeida Machado

Maio 26, 2009

O assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (EUA, 2007)

Um espetáculo cinematográfico de primeiríssima grandeza. Este é o primeiro veredito que posso dar para a obra do diretor Andrew Dominik e estrelado pelo astro Brad Pitt, em uma de suas melhores atuações. Não é um filme para qualquer público. É um pouco lento para aqueles que procuram um western movimentado, atribulado, com muitos tiros, assaltos e confrontos entre os fora da lei e os xerifes.

Na realidade, não é um filme apenas para os fãs do gênero faroeste. Vai além por trabalhar aspectos da própria condição humana. Expõe de forma clara e envolvente o mito Jesse James (Brad Pitt) em minúcias de sua vida que passam ao largo daqueles que conhecem sua trajetória como um dos mais temidos bandidos de então.

Acompanhamos os irmãos James, nesse momento de sua história apenas Jesse e Frank (Sam Shepard), já que os demais haviam sido presos ou mortos, em sua última ação conjunta, o assalto a um trem. Nesta nova e derradeira empreitada conjunta eles contam com a ajuda de alguns marginais que pouco conhecem mas que, se juntaram a eles pela fama e possibilidade de participar de um roubo orquestrados pelos já notórios fora da lei.

Entre eles estão os irmãos Charley (Sam Rockwell) e Robert Ford (Casey Affleck, em notável performance). Apesar do aparente sucesso no roubo ao trem, Jesse e Frank acabam por se separar e, desta vez, não apenas para despistar a polícia e, sim, definitivamente. Todos os demais membros do bando separam-se, permanecendo com Jesse apenas os irmãos Ford.

Neste caminho trilhado por Jesse ao lado dos Ford ficam evidentes as fraquezas e os problemas do homem que já havia se tornado um mito e que, para Robert Ford, a princípio, era verdadeiramente um ícone. Jesse demonstra cansaço, alterna humores, não parece confiar em mais ninguém, é duro mas aparenta preocupação permanente. Bob Ford percebe que o homem que conhecia e admirava desde a infância a partir de relatos de jornais e livros que chegaram a sua mão, é uma pálida sombra daquilo que lera ou ouvira falar.

Jesse James parece ainda menos heróico e mais humano aos olhos de Bob pelo simples fato de ter uma família, mulher e dois filhos, o que o torna muito mais mortal e próximo do que a princípio se poderia pensar em relação a um tão renomado assaltante e frio assassino. Matar Jesse James, traindo sua confiança, demonstrando suas fraquezas e entregando o cadáver de um mito daquele tempo parecia a Bob Ford o caminho mais curto para a glória, ele só não imaginava as consequências reais de seus atos…

E é justamente neste ponto que o filme se mostra grandioso, ao colocar frente a frente dois homens atormentados pelas circunstâncias de suas existências… O primeiro, Jesse James, um homem que sabe ter seus dias contados, sua experiência abreviada, finita, e seus dias de êxito e fama próximos do fim… O segundo, Robert Ford, um jovem aspirante a todas as benesses que o mundo poderia lhe oferecer caso conseguisse o que nenhum grande pistoleiro fizera até então, tombar o mito…

O ocaso de uma lenda causado por um homem perturbado, pobre de espírito, frágil, covarde… Um filme épico, daqueles que, ao findar, nos deixam atônitos, tontos, sem saber ao certo o que pensar… Cinema de primeiríssima!

Por João Luís de Almeida Machado

Maio 19, 2009

Como se fosse a primeira vez (50 First Dates, EUA/2004)

O que você seria capaz de fazer por amor? Seria muito interessante se pudéssemos fazer uma pesquisa tendo como base a pergunta que inicia este texto. Quantas e quão diversificadas seriam as respostas que encontraríamos, com certeza. Desde aquelas em que as pessoas demonstrariam todo o seu romantismo despejando dos céus, a partir de um avião, uma chuva de pétalas de rosas, até pessoas que estiveram ao lado do amor de suas vidas num leito de hospital, esperançosas de que algum milagre viesse a salvar-lhes a vida, devotando todo o seu tempo, carinho e amor, sem arredar pé nem um minuto sequer…

“C’est l’amour”, como dizem os franceses. Não há fronteiras imagináveis para a criatividade dos apaixonados, daqueles que amam com profundidade. E é justamente por apostar nesta máxima que o diretor Peter Segal acertou em cheio com a comédia romântica “Como se fosse a primeira vez”, estrelada pelos astros Adam Sandler e Drew Barrymore.

Neste filme o personagem de Sandler, Henry Roth, um veterinário que trabalha num aquário e cuida de animais marinhos de grande porte, como lontras e golfinhos, por acaso encontra uma bela garota num pequeno restaurante local. Iniciam um bate-papo, a conversa fica descontraída, eles se entrosam, rola um clima romântico e… Amanhã continuamos, aos poucos vamos engatando este romance, dentro em breve teremos certamente um namoro…

No outro dia, Roth (Sandler) retorna ao restaurante na espera de reencontrar a bela Lucy Whitmore (Drew) e, imediatamente se dirige a sua mesa, repetindo algumas das brincadeiras do dia anterior. Esperava ser recebido com carinho e alegria pela moça, mas para sua surpresa… Ela reage como se nunca o tivesse visto antes, pede ajuda a funcionários do estabelecimento e diz estar sendo assediada…

Confuso, Roth (Sandler) fica então a distância e tenta descobrir o que aconteceu com Lucy (Drew). É então informado que ela sofre de perda de memória recente em virtude de uma acidente automobilístico. A jovem é incapaz de se lembrar de fatos e acontecimentos ocorridos de um dia para o outro e está, literalmente, revivendo todos os dias, os passos daquilo que lhe ocorreu antes de seu acidente.

E é neste ponto que surge o ponto alto do romance, ou seja, a capacidade de Roth (Sandler) se reinventar todos os dias para conquistar a mulher de sua vida, nem que para isto tenha que enfrentar inúmeros obstáculos.

“Como se fosse a primeira vez” parece aquelas comédias de Sessão da Tarde, despretensiosas, mas trás no seu âmago aquilo que há de mais belo em nossas vidas - a paixão, o romance, o amor, a capacidade de se doar e se devotar a um outro ser humano. Se não bastasse isto, ainda tem Adam Sandler e Drew Barrymore em um de seus melhores filmes, contando ainda com a participação especial de Rob Schneider (parceiro de Sandler em outras produções).

Destaque também para o lado cômico, com piadas sutis nas falas do personagem de Adam Sandler e nem tão sutis assim nas participações de Schneider. Outros pontos altos do filme são as locações (no Havaí) e a belíssima trilha sonora, com grandes sucessos dos anos 1960, 1970 e 1980 regravados ou resgatados.

Obs. Vale destacar também a pequena participação do comediante americano Dan Aykroyd, um veterano das telas que certamente inspirou Sandler e todos os demais comediantes americanos da nova geração.

Por João Luís de Almeida Machado