Há uma linha tênue a separar o bem e o mal, a sanidade e a loucura. Nenhum de nós está livre e, a propósito, a convivência entre o que é insano e aquilo que nos torna normais perante a sociedade ocorre a todo o momento, seja entre diferentes pessoas, seja dentro de nós mesmos. “Batman, o cavaleiro das trevas”, surgido de uma cultuada HQ, nasce clássico justamente pelo fato de mexer sem dó nem piedade nessa ferida que tanto nos atormenta. Isso é facilmente comprovável para quem assiste a esse colossal filme de Christopher Nolan (o mesmo de “Amnésia” e do filme anterior do encapuzado herói de Gotham City, “Batman Begins”) apenas pelo fato da história ser toda ela conduzida e protagonizada com maestria não pelo morcego paladino da justiça, e sim por seu inimigo maior, aquele para quem nada é tão delicioso quanto (literalmente) ver o circo pegar fogo, o Coringa. Para arrematar essa trama para lá de tétrica e assustadora, em que o riso visceral e sarcástico do palhaço do mal ecoa ao longo de toda a projeção, vemos ainda a constatação do homem-morcego de que ele precisa do Coringa tanto quanto seu oponente necessita do herói… O filme é tão intenso e rico que Batman entra em crise existencial, plenamente justificada, ao descobrir-se não muito diferente de seus rivais… E, de quebra, vemos ainda o nascimento (ou surgimento, como queiram), da loucura configurada na forma de um homem que legitima a tese do filme de Nolan, o Duas Caras… Com atuações destacadas de Christian Bale (que não deixou ninguém com saudades dos outros Batmans) e de coajuvantes de luxo como Morgan Freeman, Michael Caine, Aaron Eckhart, Gary Oldman e Maggie Gyllenhall (a mais fraquinha do filme, podiam ter arrumado uma atriz melhor, mais bonita e exuberante para causar ciúmes em Bruce Wayne e Harvey Dent), o brilho maior foi mesmo de Heath Ledger… Perto do Coringa de Ledger os outros vilões parecem apenas caricaturas. Nem mesmo o grande Jack Nicholson, que havia vivido o bandido na primeira incursão de Batman pelo cinema, chegou perto de expressar com tanta veemência a demência e a decadência humanas percebidas num vilão… Ledger foi simplesmente o máximo… Pena que nos deixou tão cedo…
Por João Luís de Almeida Machado

1 Comentário
Agosto 6, 2008 às 3:16 am
Quando se acaba de assistir Batmam- o cavalheiro das trevas- fica um sentimento de perplexidade,admiraçao e desejo de rever.Filme fantástico,longe de ser apenas uma adaptação de uma BD sem compromisso é um filme sério com pitadas de humor “negro” , fala de :impunidades, máscaras que usamos no dia-a-dia para nos defender, máfias, insanidades,corrupção e por aí vai…É um filme que coloca em xeque valores morais e éticos,Mudaram as adaptações de HQs? não.O que mudou foi a forma de retrata-las. O responsável por isso foi um diretor corajoso que ousou arriscar fazer um longa que mexe com os sentimentos do espectador e faz pensar.Agora ,como diria o Coringa, “não tem mais volta”.O diretor Chris Nolan nivelou por cima, quem ousar enveredar por esse caminho vai ter que fazer um bom trabalho,as comparações serão inevitáveis.Os cinéfilos agradecem.